No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, a história de uma das maiores referências femininas da política cuiabana ganha ainda mais significado. Ana Maria do Couto, carinhosamente chamada de “May”, é o exemplo da força feminina, que marcou gerações e abriu caminhos para tantas mulheres em Mato Grosso.
A sobrinha de May, Telma Couto, faz questão de apresentar quem era Ana Maria dentro de casa, além de uma figura pública. “Eu sou suspeita para falar, porque ela foi como uma segunda mãe para mim”, conta.
Solteira e sem filhos, Ana Maria dedicava atenção especial aos sobrinhos. Generosa, acolhedora e extremamente ligada à família, fazia questão de manter a casa sempre aberta. “Se chegasse alguém na hora do almoço, ela mandava sentar e almoçava junto. O que ela tinha de maior não era fama, era generosidade”.
Uma mulher que se fez por si
De origem simples, Ana Maria construiu sua própria trajetória. Segundo Telma, não houve privilégios financeiros nem padrinhos políticos. “Ela galgou cada degrau por mérito próprio e nunca esqueceu suas raízes”, destacou.
Foi pioneira desde cedo. Ganhou bolsa de estudos e se formou em Educação Física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tornando-se uma das primeiras esportistas mato-grossenses a conquistar destaque fora do estado. No período em que viveu no Rio de Janeiro, foi campeã de lançamento de disco pelo Fluminense Football Club.
De volta a Mato Grosso, tornou-se professora concursada do Estado, sendo também uma das primeiras mulheres a ocupar esse espaço. Desde então, sua postura firme e sua autenticidade começaram a chamar atenção. “Ela não ligava para o que falavam. Chegava, fazia, entrava de cabeça. Isso foi fundamental para ela crescer”, diz Telma.
Do rádio à política
O interesse pela política começou a se consolidar em 1952, quando passou a apresentar um programa na emissora de rádio “A Voz do Oeste”, ao lado do então deputado estadual Augusto Mário Vieira. Em uma época em que tudo era feito de forma artesanal, Ana Maria escrevia seus próprios textos e comentava notícias políticas ao vivo.
Mais tarde, também atuou na televisão com o programa “Galeria de Vultos”, na TV Centro América, onde destacava personalidades cuiabanas. Em 1970, recebeu o título de jornalista em Mato Grosso, reconhecimento concedido aos profissionais que já atuavam na área antes da existência de curso superior específico no estado.
Em 1962, elegeu-se vereadora pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Poucos anos depois, tornou-se a primeira mulher a presidir a Câmara Municipal de Cuiabá, um feito histórico em meio a um cenário fortemente marcado pelo machismo da época.
“Ela enfrentava tudo de cabeça erguida. Não era fácil. Mas a presença dela impunha respeito”, relembra a sobrinha.
Pioneirismo que mantém até hoje
Hoje, a Câmara Municipal de Cuiabá vive um momento igualmente simbólico, com uma Mesa Diretora 100% feminina e oito vereadoras representando a força da mulher no Parlamento cuiabano. Para Telma, essa realidade tem ligação direta com o caminho aberto por pioneiras como sua tia.
“Se ela estivesse aqui, levantaria e aplaudiria. Tenho certeza. Ninguém está ali hoje por acaso. Alguém abriu a porta antes”, frisou.
Para a sobrinha, o maior legado de Ana Maria é a coragem de lutar sem perder a dignidade. “Ela nunca deixou de lutar. Não ficou rica, não acumulou bens. O que deixou foi história”.
Vida breve, legado eterno
Ana Maria faleceu em 1971, pouco mais de um mês após completar 46 anos. Mesmo enfrentando problemas de saúde, em uma época em que não havia os tratamentos disponíveis hoje, manteve-se ativa até o fim. Naquele mesmo ano, presidiu o Dom Bosco e realizou uma das últimas grandes ações públicas de sua trajetória.
“Ela tinha uma força interior impressionante. Acho que, se não fosse essa força, teria partido antes”.
A casa onde viveu seus últimos dias pouco foi desfrutada por ela. A memória afetiva de Telma permanece na residência da rua Comandante Costa, onde Ana Maria morava com a mãe, dona Chiquita, e a tia Nenê ,três mulheres fortes, viúvas, que se apoiavam.
A mensagem que fica
Para encerrar, Telma resume qual seria a mensagem que Ana Maria deixaria às mulheres de hoje.
“Não deixe de lutar pelo que você quer, não importa o tamanho do seu sonho. Lute todos os dias. É possível chegar lá. E lembre-se: você vai deixar uma história. Então construa uma história digna”.
Ana Maria do Couto, a May, transformou a coragem em legado e abriu caminhos para que outras mulheres também pudessem chegar ao topo.